Relatório do Coaf indicou movimentações suspeitas para igrejas; CGU diz que igrejas eram usadas para lavagem de dinheiro
As igrejas evangélicas citadas nas investigações que apuram desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) receberam ao menos R$ 1,5 milhão de empresários ligados a essas operações. Levantamento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações suspeitas que envolvem lideranças religiosas, igrejas e empresários citados na CPI do INSS.
As movimentações aparecem nos nomes de 4 igrejas: Adoração Church (Pará), Assembleia de Deus Ministério do Renovo (Maranhão); Ministério Deus é Fiel Church (Sete Church), de São Paulo (São Paulo); e Igreja Evangélica Campo de Anatote, de Barueri (São Paulo).
De acordo com a Controladoria-Geral da União (CGU), as igrejas evangélicas foram usadas ao longo dos desvios do INSS por suspeitos de desviar recursos de aposentados e pensionistas, como possível mecanismo para lavagem de dinheiro.
A primeira delas é a Adoração Church. A CPI pediu a investigação da entidade depois que o Coaf identificou um repasse de mais de R$ 366 mil à igreja vindo de Percia Coelho Takashima. O envolvimento com os desvios do INSS se dá porque a empresa Amazonriente Rural Sustentável, que está diretamente ligada aos repasses ilegais. A companhia também pertence aos familiares de Percia.
O pastor que preside a Adoração Church é Heber Pereira Trigueiro. Além de liderar a igreja e atuar como músico, ele também tem uma atuação política. Em 2022, Trigueiro usou as redes sociais para fazer campanha para o então candidato à reeleição Jair Bolsonaro. Ele declarou voto e fez menções religiosas ao indicar apoio ao ex-presidente.
Trigueiro foi nomeado em 2020 por Bolsonaro para chefiar a secretaria do Audiovisual, ligada ao ministério da Cultura. Depois da divulgação dos dados, o pastor disse que o pagamento desse montante era referente ao dízimo – valor pago pelos fiéis à igreja.
Outro pastor citado pelo Coaf é Antônio Nunes da Silva, que preside a Assembleia de Deus Ministério do Renovo. A instituição recebeu R$ 511 mil da ADS Soluções e Marketing Ltda, empresa criada em fevereiro de 2023 para prestar serviços de marketing para três associações suspeitas de desviar recursos do INSS.
Por conta dessa atuação, a ADS recebeu R$ 116 milhões em descontos previdenciários de empresas relacionadas aos desvios. A companhia foi baixada e desativada em junho de 2025.
O pastor também é sócio da empresa Construtora Sym Ltda. e chamou atenção do Coaf com as movimentações já que, em sua declaração de renda, ele afirma ser aposentado e receber apenas R$ 1.320, o que, para o Conselho, representa uma movimentação suspeita por clara incompatibilidade patrimonial identificada.
Todas as igrejas mencionadas tiveram a transferência de sigilo pedido pelo deputado Rogerio Correia (PT-MG), enquanto os pastores foram convidados para oitivas na CPI.
Golden Boys
Um dos grupos fundamentais para o quebra-cabeça da relação entre igrejas e a fraude do INSS são os Golden Boys. Esse grupo está ligado à terceira igreja mencionada: Ministério Deus é Fiel Church, conhecida como Sete Church, do pastor Cesar Belluci do Nascimento. Bellucci é réu em uma investigação que apura um esquema de pirâmide. A apuração foi aberta depois de uma ação movida por pessoas que se sentiram lesadas em promessas não cumpridas de investimentos em criptomoedas.
A igreja teria recebido R$ 370 mil de Anderson Cordeiro e outros R$ 124 mil de Américo Monte, presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios, empresa que é citada por receber R$ 316 milhões em descontos de aposentados do INSS. Os dois são empresários e integram o Golden Boys, que, junto a Felipe Macedo Gomes, frequentava a Igreja e administrava o quadro associativo da Amar.
Anderson Cordeiro também é responsável por administrar outras associações de aposentados e pensionistas investigadas como a Master Prev, a Associação Nacional de Defesa Dos Direitos Dos Aposentados e Pensionistas (Anddap) e a Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionistas (Aasap).
Já Américo também foi responsável por fazer uma transferência de R$ 200 mil a Péricles Albino, líder da igreja evangélica Campo de Anatote. Apesar da ligação direta com o empresário, a igreja respondeu em nota as acusações afirmando que não recebeu doações de pessoas envolvidas na fraude do INSS.
“A igreja, devidamente constituída e comprometida com os princípios das Sagradas Escrituras, teve seu nome injustamente exposto em relação à CPMI do INSS. Não há indícios ou provas que demonstrem que a igreja tenha sido utilizada por qualquer um dos envolvidos no esquema criminoso que está sendo investigado. É fundamental ressaltar que a Igreja não possui qualquer envolvimento ou foi utilizada para práticas ilícitas”, diz o texto.
Maiores nomes
Um dos principais envolvidos com o Golden Boys é André Machado Valadão, líder religioso que coordena a igreja Lagoinha, instituição ligada à Clava Forte Bank, plataforma que chegou a sair do ar assim que a operação contra o Banco Master, independente da CPI do INSS, começou. A plataforma era responsável por receber doações dos fiéis. Durante os cultos, os dados do banco eram divulgados acompanhadas de frases como: “Investindo no Futuro, fortalecendo o Reino”, “Empoderar igrejas com fé e finanças”.
Valadão recebeu de Felipe Macedo patrocínio para o evento de réveillon promovido pela Igreja no estádio Allianz Parque. De acordo com o Coaf, essa movimentação financeira foi feita no auge dos descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas. O pastor é um aliado de Bolsonaro e, além de ter feito campanha ao ex-presidente, já recebeu o ex-mandatário em seus cultos.
O pastor respondeu às acusações nas redes sociais. Em uma publicação, disse que não recuaria “nem ficaria calado” diante das denúncias e usou o caso para fazer um apelo aos fiéis com discurso político.
“Não vamos recuar nem ficar calados diante de tudo o que está acontecendo. Não se trata de um ataque apenas a um líder, mas a toda uma igreja que contribui para a sociedade. Chega de deixar espaço para fake news e invenções! Vamos responder abertamente e com transparência, para que as pessoas voltem a respeitar a igreja e os milhares de trabalhadores que se dedicam dia e noite. Não aceitem que deputados petistas tentem destruir a reputação de quem se opõe às suas ideologias”, escreveu.
O principal dos nomes ligados à CPI é Fabiano Campos Zettel, líder da Igreja Bola de Neve. Ele foi o sexto maior doador das eleições de 2022 e o maior doador pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) para a presidência em 2022 e do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Ele é cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Máster, e mantém relação com a Igreja Lagoinha. Zettel foi preso temporariamente pela Polícia Federal (PF) após ser pego tentando fugir do país rumo aos Emirados Árabes Unidos. Agora, ele foi convidado para uma oitiva na CPI para apurar o envolvimento no caso, além da participação nas investigações sobre as fraudes no Banco Máster.
Outro a receber doação de Felipe Macedo foi o pastor André Fernandes, que também atuava na Lagoinha. O Coaf identificou um Pix de R$ 200 mil para o líder religioso também durante os desvios do INSS.
Rusga na direita
Os nomes foram levantados inicialmente pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Segundo a congressista, igrejas evangélicas foram identificadas “nos esquemas de fraudes aos aposentados”. A declaração foi dada durante uma entrevista ao SBT News e provocou a ira de uma liderança religiosa da extrema direita.
O pastor Silas Malafaia saiu em defesa dos seus companheiros e questionou a fala de Damares. De acordo com ele, a senadora precisaria divulgar o nome de todos os envolvidos e as provas, caso contrário, ela seria uma “leviana linguaruda” que deveria “calar a boca”.
Depois que Damares divulgou uma lista com os nomes, Malafaia sustentou os ataques e disse que não havia uma prova apresentada contra qualquer pastor mencionado.
“Só tem o nome de um grande pastor. E que também ainda não tem nada provado contra ele, que é o pastor da Lagoinha, André Valadão. Então ela foi leviana, mentirosa e linguaruda. E continua sendo. Porque não tem um nome. É só você olhar a tua lista. O desafio a Damares continua. Quem é que fez lobby para não dar nome de igrejas? Cadê as grandes igrejas?”, afirmou Malafaia.
Editado por: Nathallia Fonseca

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