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quinta-feira, março 31, 2016

“GOVERNO FHC FEZ PRESSÃO PARA ABAFAR CASO BANESTADO”, DIZ PROCURADOR CARLOS LIMA, DA LAVA JATO. POR PEDRO ZAMBARDA

Carlos Lima, da Lava Jato, palestra na AMCHAM
Carlos Lima, da Lava Jato, em palestra na AMCHAM

Por Pedro Zambarda de Araujo

O procurador Carlos Fernandes dos Santos Lima, membro da força-tarefa da Operação Lava Jato, deu uma palestra na manhã desta quinta-feira (30) sobre as famosas 10 medidas para combater a corrupção.

Ele falou por mais de uma hora na AMCHAM Brasil, em São Paulo. “O nosso trabalho é criticado e eu estou aqui para ouvir todas as perguntas, de forma democrática”, afirmou.

Com 37 anos de experiência, Lima contou que a real inspiração da Lava Jato foi o caso Banestado, que ganhou fama em 2003 ao trazer a primeira delação premiada de Alberto Youssef antes de envolver a Petrobras. O caso envolvendo o Banco do Estado do Paraná teria gerado prejuízos de cerca de R$ 42 bilhões.

“O Banestado foi a operação que criou o modelo da Lava Jato. Nós nos inspiramos na Justiça norte-americana ao trazer o método de delações premiadas naquela ocasião. A ideia era justamente que o acusado fizesse uma confissão de crime que atinja corruptores maiores para atenuar sua punição”, falou.

É uma versão diferente da de Sergio Moro, segundo o qual a investigação foi inspirada na Operação Mãos Limpas da Itália.

Numa reportagem divulgada pela revista Istoé, ele é descrito como uma “raposa no galinheiro” pelo fato de sua esposa ter trabalhado naquele banco. Ele também teria engavetado a investigação para a CPI na época, que poderia incriminar o economista Gustavo Franco, o ex-prefeito falecido Celso Pitta, num total de 91 indiciados.

“A história da revista é uma mentira absoluta. Minha esposa era escriturária do Banestado, sem nenhum cargo de gestão, eu processei a Istoé e ganhei. No entanto, como eles estão em recuperação judicial, eu não vi a cor do dinheiro até hoje. Acredito eu que a matéria foi publicada por interesses dos próprios integrantes da CPI. Na época, o governo Fernando Henrique Cardoso estava com o dólar em alta, assim como hoje, e existia uma pressão para abafar as investigações”, disse ao DCM.

Ele afirma que a cultura europeia, raiz do Direito brasileiro, não costuma ver com bons olhos o uso de depoimentos de delatores para punição de crimes. No entanto, Carlos Lima acredita que esta é a única forma efetiva de punir adequadamente grandes esquemas de corrupção, e não vê problema num criminoso receber uma pena menor em nome de punições “mais justas” para os políticos beneficiados com propinas e caixas dois.

“O juiz [Sergio Moro] divulgou os grampos envolvendo o ex-presidente Lula e a presidente Dilma na Lava Jato por decisão dele, mas é importante salientar que essa publicidade aconteceu a pedido do próprio Ministério Público. Além disso, a Polícia Federal selecionou as gravações. A responsabilidade é de cada um de nós”, frisou.

O procurador afirma que tem formação de esquerda e que seu pai foi deputado no Paraná durante a década de 1970. “Ele chegou a hipotecar a própria casa e desistiu da política pelo custo. Por isso, eu te pergunto: se é tão cara a candidatura de governantes, não é melhor que tudo seja investigado e esclarecido?”.

Carlos Lima diz que mudou de mentalidade ao estudar crimes do colarinho branco na Cornell Law School, nos Estados Unidos.

Ele disse que votou em Brizola e Lula e fez um elogio aos governos petistas sobre a atuação da própria Justiça. Para o procurador, graças à autonomia concedida pelas gestões federais, seu trabalho foi executado com mais independência e teria retornado cerca de R$ 4 bilhões de corrupção da Petrobras aos cofres públicos na Lava Jato. Carlos Lima também não espera que um governo Michel Temer vá abafar as investigações, o que seria um retrocesso.

Questionado sobre o prêmio que Sergio Moro recebeu da Rede Globo e sobre as participações do juiz em eventos do LIDE, grupo de empresários do tucano João Doria, ele afirma que a atitude é normal e que não configura conflito de interesses. Lima também não acredita numa partidarização da Lava Jato e acha que essas insinuações são realizadas por “blogs políticos” que fazem “acusações irresponsáveis”.

“Eu acredito na independência do juiz Moro. Hoje em dia as pessoas vêm qualquer coisa publicada e tomam como verdade”, diz.

Para o procurador, a condução coercitiva com Lula foi uma atitude calculada com o objetivo de “proteger a população”: “Se soubesse do que ia acontecer, acredito que o ex-presidente estaria ‘regendo’ sua própria militância da sacada do seu apartamento, provocando o caos. A Lava Jato se destaca por uma atuação pública que não compromete suas investigações”.

Carlos Lima diz que a prática de vazar dados para veículos de imprensa é um método oficial da operação e que apenas é mantido em sigilo informações que podem comprometer familiares inocentes dos acusados. “Estamos vivendo tempos de ódio e é fundamental ter diálogo nestes momentos. O sigilo estabelecido na Lava Jato é apenas o necessário e a devida publicidade do processo é realizada”.

O procurador diz também que um pedido de prisão pode ser expedido para os acusados nos próximos dias. “Para o Lula?”, perguntaram os repórteres.

O procurador preferiu não confirmar, alegando que é necessário trabalhar de maneira justa e não fornecendo nenhum prazo para tal atitude. Para ele, Moro tem autonomia no processo.

“O que não podemos fazer é sempre jogar os crimes para o Supremo. Eles são um tribunal formado por constitucionalistas. Não tem experiência penal e esses casos de corrupção deveriam sim ter uma punição mais adequada em processos em primeira instância”.
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